quinta-feira, 23 de março de 2017

O FUNDAMENTO SEGURO DO REMANESCENTE


Participei de um congresso acadêmico e no Grupo de Trabalho (GT) no qual estava inserido escutei uma apresentação sobre cuidado pastoral. O tema é extremamente pertinente, mas o notável foi o referencial do trabalho: as obras de Foucault. Seria como falar da cultura judaica a partir de Mein kampf. Parece que alguns acadêmicos adventistas estão mais preocupados em se tornar reconhecidos do que em construir sobre paradigmas legitimamente cristãos.
Mesmo na área de teologia, há fortes riscos. Assisti a uma plenária em uma faculdade adventista sobre a contribuição de Ellen G. White. Após a excelente apresentação, o programa estabelecia uma réplica. O professor que a proferiu destacou o valor da sociologia como ferramenta para o fazer teológico em termo que divergiam completamente das noções mais básicas de hermenêutica adventista. Chegou a ser quase constrangedor que, durante a tréplica, o proponente inicial tivesse de, mui sutil e educadamente, contestar seu colega.
Recente conversando com um colega, ouvi que alguns professores da área bíblica admitiam que se a exegese divergisse do que escreveu Ellen G. White, o intérprete deveria ficar com a própria pesquisa. Quando contestado por um aluno sobre uma explanação contrária ao que escreveu a mensageira do Senhor, outro professor apenas abriu os braços. Com o gesto, parecia dizer: “Fazer o quê? Escolha você em quem acreditar!”
A excelência acadêmica deve continuar como a meta a ser alcançada. Mas não a expensas de princípios que nos caracterizam como o povo peculiar nesse tempo. Nenhum conhecimento adicional deve substituir os fundamentos bíblicos que fazem dos adventistas o que eles são: o remanescente da profecia. O descrédito lançado a essa premissa por acadêmicos do próprio movimento causa danos há décadas em alguns países europeus e regiões dos Estados Unidos. Esse seria um dos fatores da perda da identidade adventista no hemisfério norte. Não se pode deixar que o mesmo ocorra em nosso contexto.
Correndo o risco de incorrer em uma simplificação excessiva, penso que a questão está em definir o que forma a base das nossas crenças. Temos dado concessões demasiadas à cultura. Tradicionalmente, os adventistas defendem o princípio sola Scriptura (somente as Escrituras). Sob o leque de atuação desse princípio, temos a operação de outros dois: tota Scriptura (toda a Escritura, a Bíblia em sua totalidade, o cânon da revelação) e prima Scriptura (primeiro as Escrituras, ou seja, o primado da Bíblia sobre outras fontes (a) revelatórias, como a natureza ou profetas extra-bíblicos, por exemplo e (b) que ajudam a compreender as Escrituras, como a tradição, quer moderna ou contemporânea). Somente quando a Palavra de Deus ganha o espaço devido, de geradora e fonte de retroalimentação de uma visão de mundo peculiar, o remanescente vive à altura de sua missão.
Diante da perspectiva de fortes elementos secularizadores em nosso meio – quer no ambiente acadêmico ou mesmo em nível de liderança –, corremos o risco de abraçar pressuposições, metodologias e práticas que deformem o adventismo. Nada disso é novo na história do povo de Deus ou mesmo motivo para alarme. Devemos aproveitar esse momento para refletir profundamente naquilo que Deus deseja para nós como movimento mundial, comunidade local, família e indivíduos. Com fé na Palavra e confiança na direção do Senhor, avançaremos humildemente para a vitória escatológica prevista. Eis a minha esperança – e a de todo adventista fiel! Uma esperança acima de qualquer crise, quer passada, quer por vir.


Leia também

domingo, 19 de março de 2017

GERAÇÕES TRABALHANDO JUNTAS PARA CRISTO


Barnabé e João Marcos, Moises e Josué, Elias e Eliseu, Jônatas e Davi, Jesus e os discípulos, Abraão e Ló, Esdras e Neemias, entre outros: não é incomum que nas Escrituras pessoas de faixa etária distinta interajam de forma harmônica. Se na Bíblia existe discipulado, é certo que muitos dos exemplos dessa prática se dão em um contexto intergeneracional.
Hoje há um distanciamento entre indivíduos de gerações distintas por causa da mídia: especialmente com o advento da cultura jovem, a partir da década de 1950, houve uma ruptura da continuidade histórica natural, levando a se prescindir da vida adulta como modelo a ser almejado. Atualmente se faz de tudo para fugir da frustração indissoluvelmente ligada à maturidade, com suas responsabilidades e rotinas.
O bom é ser jovem, jovem eternamente, viver com os pais até os trinta, trabalhando mais por hobbie do que por realização. Se na década de 1960, 70% dos homens chegavam aos 30 anos (a) formados, (b) empregados, (d) casados e (e) com filhos, requisitos da vida adulta, as estatísticas atuais indicam que apenas 30% dos homens atingem tais metas até os 30 anos. Aliás, poucos ambicionam atingi-las. Se “balzaquiana” indicava a mulher na casa dos trinta, a mulher madura, poderíamos dizer que no cenário contemporâneo as cinquentonas são as novas balzaquianas.
Se por fatores sociais os casais demoram a se casar ou a ter filhos, deveríamos admitir essa cultura no seio do cristianismo? Há sérias preocupações que envolvem o discipulado da geração atual, especialmente quando se reflete sobre a influência de padrões seculares sobre esses jovens. Somos chamados a rejeitar os moldes seculares e renovar nossa mente (Rm 12:2). Alguns pontos para se meditar:
(1)    Desde a revolução sexual (década de 1960), casamento e atividade sexual se desligaram. Na prática, muitos jovens questionam sobre a necessidade de assumirem um compromisso (com riscos inerentes) se podem desfrutar de um envolvimento sexual descompromissado. Eis um dos fatores para casamentos mais tardios, realizados por pessoas próximas aos 30 anos (além de um número de casais que passam a dividir o mesmo teto sem nenhum papel assinado). Embora muitos cristãos se deixem levar pela mesma tendência, o padrão bíblico não admite sexo pré-marital. Por essa razão, namoros longos e sem objetivo serviriam apenas para expor um casal cristão à tentação de praticar o intercurso sexual (ou a fornicar). Embora não exista uma idade concreta para se casar dentro da Bíblia, particularmente penso que, entre os 21 aos 26 anos é uma faixa etária ideal;
(2)    Pais cristãos devem incentivar e promover oportunidades para que seus filhos trabalhem o quanto antes. A atividade profissional é dignificada na Bíblia. A correta disciplina deve empreender esforços positivos para que jovens reconheçam o trabalho como um mandato divino;
(3)    Lares cristãos, por meio do culto familiar, e igrejas, por meio do clube de Aventureiros/ Desbravadores, programa da Escola Sabatina, Culto jovens e demais oportunidades de treinamento e práticas missionárias, devem inculcar os princípios bíblicos, debatendo sobre temas centrais das Escrituras com profundidade; assim, se agirá para que uma geração pense biblicamente, fazendo contraponto sadio com as influências seculares (as quais se disseminam por meio da mídia e do convívio com não-cristãos). Alguns mitos cristãos devem ser fortemente combatidos nesse processo: (a) a neutralidade da mídia; (b) a ideia de sucesso profissional associado com alto rendimento financeiro; (c) a ideia de sucesso acadêmico associado com instituições particulares não-cristãs (educação básica) ou públicas (educação superior); (d) os supostos benefícios do consumismo moderado; (e) a despreocupação com as questões mais pertinentes de uma reforma de saúde (geralmente reduzida em termos populares à abstinência à carne suína e derivados); (f) a ideia reducionista de cristianismo concebido como fé alheia à racionalidade; etc.
As novas gerações precisam estar ligadas mais de perto com as demais gerações. Sem tal relacionamento, não há transmissão de valores. Legado chega quando se anda lado a lado. Para discipular os novos, é necessário quem corajosa, espiritual e conscientemente aceite o desafio.



Leia também
      

quarta-feira, 15 de março de 2017

A PRÁTICA DA ORAÇÃO NO MUNDO MATERIALISTA


Desde o Iluminismo, passando pela teologia liberal e adentrando no século XX, a presença divina passou a ser escamoteada, gradativamente diminuída e, finalmente, rechaçada. Hoje se fala no espaço dado à espiritualidade. Porém, tudo isso em nível pessoal. Na esfera particular, no fórum íntimo.
No “mundo real”, a opulência material garantida pelo progresso econômico que se seguiu ao fim da Segunda Guerra Mundial despertou a cobiça. Produtos feitos para durar pouco. Propagandas pensadas para vender sentimentos, aspirações e valores veiculados a quase qualquer produto – até propaganda de banco faz chorar! A toda hora, somos convidados a ter o último smartphone, o perfume recém lançado, o xampu de eficácia cientificamente comprovada. Para tudo isso, é preciso gastar tudo, porque gastar significa desfrutar. O materialismo consumista é uma expressão da confiança humana nos bens como veículos de desfrutar não apenas da “vida melhor”, prometida pelo século XX; hoje está à disposição a “vida para ser curtida”, com coisas inúteis, mas divertidas, ao alcance de todos.
Não há espaço para Deus nesse espiral pós-moderno de sensações, nesse looping de barganhas midiáticas e promessas de pote de ouro aqui e agora. Tudo está concentrado não mais nessa vida, mas no agora. Tudo o que importa é o agora. Temos de ver, ouvir a resposta, tocar as coisas, viver a sensação. Como confiar em um Deus além, invisível, que, pior!, nem sempre responde (quase nunca responde) as orações no exato momento em que são feitas?
Confiar nas respostas de Deus é algo que precisa, como nunca, ser exercitado a cada instante. Do contrário, fica fácil que mesmo cristãos conscientes vivam como ateus em sua semana de trabalho. O sábado bíblico (Êx 20:8-11) não é simplesmente um dia para ter um encontro com Deus, o que, de fato, deve ser algo diário. O sábado é a renovação do propósito da aliança com o Criador, a preparação para Seu juízo em favor de Seus santos (Ap 14:6-7) e a dedicação exclusiva do tempo para Aquele que é Senhor do tempo e da vida. O sábado serve para se desconectar com os apelos consumistas de um mundo que se acostumou com aquilo que é imediato. Na calma do dia santo, pode-se renovar o propósito de servir o Deus que estabeleceu cada coisa para seu próprio tempo (Ec 3:1-8).
Uma vez renovados, é preciso que empreguemos o tempo dos outros dias para nos conservar em espírito de oração. Não se trata da regularidade nas orações pontuais, sempre necessária. Mas o cultivo de uma mentalidade que a todo tempo converse com Deus e reconheça a necessidade de Sua presença. Afinal, em meio ao conflito cósmico no qual estamos inseridos, a grande questão não é em que gastaremos nosso dinheiro ou qual diversão estará à nossa espera. A salvação está em jogo em cada decisão importante – mesmo naquelas que não se percebem importantes.
Oramos porque não estamos seguros em um mundo dominado pelas trevas. Oramos porque há um Deus que, como um Amigo sempre presente, sente interesse por nós e deseja nos amparar. Oramos porque Deus é totalmente amável e benevolente, cheio de misericórdia, amor e paciência. Oramos porque é nossa maneira de amá-Lo por tudo o que Ele é e tem feito.


Leia também
    


segunda-feira, 13 de março de 2017

A MULHER QUE NÃO CONHECIA BRUCE WAYNE


Estávamos em um restaurante de um shopping, aguardando o pedido chegar. Stephanie, nossa bebê, se distraía com músicas cristãs e livrinhos de plástico contendo histórias bíblicas. Saí da mesa à caça do banheiro, quando cruzei com os mascarados. Iam excitados, em grupos, falando coisas que não consegui ouvir. Claro que me indaguei a razão de tanta gente usar roupas e máscaras tirados da série Star Wars. Acabei reencontrando outras pessoas vestidas a caráter no corredor próximo da área em que ficavam os cinemas e minhas dúvidas foram esclarecidas. Não sei dizer se era exatamente a estreia, mas vi que Rogue One se achava em cartaz. Logo voltei para a direção em que ficavam os banheiros (localizados do lado oposto em que eu havia me dirigido).
O famoso bordão "que a força esteja com você" seria reconhecido por quase qualquer pessoa que cresceu na década de 1980. Menos pela minha esposa Noribel. Ela não sabia quem era o Peter Parker ou Bruce Wayne. A cultura pop era um terreno (quase) completamente desconhecido para ela. Minha esposa foi criada como adventista desde os dois anos de idade (um colportor estudou a Bíblia com os meus sogros; o pai da minha esposa decidiu-se ao fim do estudo, mas minha sogra demorou ainda dois anos para se batizar). Noribel cresceu aprendendo com a lição da Escola Sabatina, participando de acampamentos com os desbravadores, desejando ir para o internato (o que se realizou na faculdade e graças à colportagem) e participando dos cultos e programas da igreja.
Se eu pudesse, daria um doutorado honoris causa em educação para os meus sogros. Ou em evangelismo voltado às novas gerações. Como duas pessoas simples souberam criar seus filhos com tanta ênfase no espiritual? Eu não tive esse privilégio – minha família passou a frequentar reuniões adventistas quando eu tinha quinze anos (graças a um curso de desenho que eu fazia). Por isso, eu e minha esposa crescemos com referenciais diferentes. E sabe qual o prejuízo de crescer com a mínima influência da cultura pop? Nenhum. Isso não impediu que Noribel se tornasse uma pessoa sociável, inteligente e divertida. Ela e muitos adventistas que conheci, vindos de lares realmente cristãos, se destacavam por terem enraizado em seu caráter conceitos que são a base do adventismo.
Quem forma a base para uma nova geração são os pais. A mídia somada com outros fatores, como as revoluções sociais e tecnológicas, exercerá influência limitada pela atuação de pais cristãos. Quando nos perguntamos "O que fazer para alcançar as novas gerações?", estamos mostrando preocupação na direção equivocada! A pergunta deveria ser: "O que diz a Bíblia?" Quando pais ensinam seus filhos a pensar biblicamente, eles formam jovens que servirão como representantes de Cristo entre outros jovens. E o que alcançam pessoas não são os métodos, mas outras pessoas. A vida transformada prega com eficácia sobre o evangelho que a transformou.
Fico feliz quando o culto familiar acaba e a Stephanie folheia sozinha sua Bíblia ilustrada. Sem saber ler ou falar, ela já é uma investigadora das Escrituras. Em meio à geração de pessoas confusas, que não aceitam a Verdade única e abraçam o experimentalismo pragmático para escolher sua espiritualidade, estou criando uma testemunha. Deus me dê a sabedoria que meus sogros –  e tantos outros adventistas fiéis – tiveram.


Leia também


Para adquirir o livro Explosão Y:

sexta-feira, 10 de março de 2017

DECIDA POR MANTER A BASE


Foi curioso quando o repórter indagou o músico cristão o porquê de suas letras se tornarem menos explícitas em sua religiosidade; a resposta, entre outros elementos, destacou a necessidade de conversar com um público mais amplo, incluindo pessoas não religiosas. Afinal, nossas experiências humanas são as mesmas, quer para cristãos ou descrentes. Depreende-se daí um certo viés existencialista, que procura no universalismo a expressão de sua fé. Nada mais pós-moderno.
Reduzir a crença a um estar-no-mundo que, em essência, não difere muito de outras posturas existenciais é algo perceptível para além das ondas sonoras do gospel. As mensagens do púlpito focam problemas humanos, alguns de amplitude universal (solidão, medo, tristeza, etc) ou de caráter contemporâneo (divórcio, desemprego, crise familiar, etc). Não há dúvida de que Deus Se interessa pelo cotidiano de Seus filhos. Ele Se comunica conosco em nossas necessidades. Todavia, a ênfase dada é muito mais antropocêntrica, retratando Deus como um solucionador universal, uma espécie de consolo, minimizando o aspecto instrutivo e cognitivo da mensagem bíblica (aspectos que não deixam de ter implicações práticas também).
Um cristianismo que lê a Bíblia apenas preocupado no tipo de respostas divinas para os dilemas contemporâneos começa sua busca pelo lugar errado. A leitura (ou seja, a interpretação que fazemos) deve contemplar o que Deus disse, procurando entender (1) o momento em que Ele disse (contexto histórico), (2) dentro de qual livro Ele disse (contexto literário), (3) a relação do que Ele disse com outras coisas que também foram ditas (analogia das Escrituras), para compreender corretamente o que foi dito. Depois desse processo, que depende da nossa relação com o Espírito Santo (1 Co 2:13-14) e com o as próprias Escrituras (Is 8:19-20), se pode pensar em uma aplicação das Escrituras (para minha vida) e na proclamação (no púlpito, em um estudo bíblico, pequeno grupo, contato pessoal, etc).
Quando se lê a Bíblia apenas para justificar uma posição (seja doutrinária, pessoal ou apologética), etapas são queimadas. Fica mais fácil cometer erros na leitura (interpretação), deixando que opiniões, experiências ou a influência da tradição (antiga ou contemporânea) norteiem o entendimento. Temo que, pelo fato de não refletirmos sobre os passos adequados para o estudo das Escrituras, estejamos criando uma cultura de leitores deficientes, que, na melhor das hipóteses, conseguem mencionar textos bíblicos e se justificar por meio deles, mas que são incapazes de compreender a mensagem bíblica em todo o seu potencial. Não se habilitaram a fazer as correlações entre textos e perceber como a própria Escritura, tal um todo orgânico (cânon), fornece as ferramentas para sua correta leitura (interpretação). O máximo que conseguem é ler a Bíblia segundo o modelo da escola de Alexandria – como se a Bíblia fosse compostas de alegorias, que permitissem praticamente a livre interpretação. Por isso, tanta barbaridade é proferida dos púlpitos: falta de seriedade no estudo da Palavra.
A base da fé precisa ser a compreensão de mundo extraída das Escrituras (a visão canônica). Na Bíblia como uma todo (cânon), nós nos deparamos com nossos erros conceituais e idiossincrasias, além de termos a possibilidade de substituí-los pelos conceitos e instruções dados por Deus e aplicáveis à nossa vida.
A falta de explicitude nas músicas, as mensagens genéricas no púlpito, as opiniões obtusas na internet de cristãos que “usam” a Bíblia são fatores sintomáticos. não passam de versões brandas e atuais do existencialismo contemporâneo. Nem bem se trata de um existencialismo à la Kierkegaard (lamentavelmente citado por outro músico cristão na recente edição de um programa televisivo): temos aqui sua versão mais rasa e superficial. Uma fé que se preocupa tanto com os problemas do mundo que não tem tempo para ocupar seu papel no mundo. Uma fé sem consciência de suas raízes bíblicas, sem embasamento sólido. Uma fé tão universal e similar à experiência do homem contemporâneo que seria de se admirar que ele possa se interessar por ela: afinal, o que ela oferece diferente do que ele já possui? E, mesmo que ele se interesse pelas questões que ela desperta, será difícil que ela o ajude a chegar aonde precisa, tão desvinculada se acha das Escrituras…


Leia também

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

O TRONO DO SANTUÁRIO


As versões terrestres do santuário desempenham uma função importante no Antigo Testamento. Por versão terrestre do santuário incluímos (a) a tenda ou tabernáculo construído na época de Moisés; (b) o templo de Salomão e (c) o templo construído na época de Zacarias (ou segundo templo). O santuário nunca foi um lugar místico-sagrado, como se tivesse poder em si mesmo. Um templo era considerado pelas culturas antigas a casa ou o palácio das divindades. Entretanto, o santuário israelita jamais poderia servir para a habitação de um Deus tão grandioso como Yahweh (1 Cr 17:5-6; 2 Cr 6:18 – muito embora o santuário cumprisse a função de servir como habitação de Deus com Seu povo, o que se explica mais pelo aspecto relacional do que pela necessidade divina de ter onde morar, conforme Êx 25:8). Essa função relacional do santuário não consistia na única razão para que Deus ordenasse sua construção. Por meio das versões terrestres do santuário e suas cerimônias estava prefigurado o ministério de Cristo em seus múltiplos aspectos (Hb 8:6-7, 13; 9:8-10, 15, 23-26). O santuário foi dado como uma ilustração divina para o plano da salvação, além de ser uma ilustração do santuário celestial.
Dentro do grande conflito, o santuário celestial adquire uma função tática: dali se tomam as decisões na luta contra Satanás e sua causa.  No santuário celestial está localizado o trono de Deus (Ap 7:15; 8:3; 16:17; cf.: Ap 4-5). No Apocalipse, o trono parece ser a própria essência do santuário; se o santuário será transferido para a cidade santa (Ap 21:3), isso ocorrerá devido à transferência do trono para lá (Ap 22:3). Onde está o trono de Deus, está Seu santuário.
É importante ressaltar que o trono de Satanás é uma tentativa de criar um governo paralelo ao trono localizado no “monte santo da congregação” (Is 14:13) ou “monte santo de Deus” (Ez 28:14). Muitas vezes, a montanha é identificada com Yahweh e como local apropriada para o culto (Gn 22:2; 1 Rs 20:23; Sl 1211-2). Isso torna o ataque de Satanás um ataque contra o santuário. O plano da salvação é o contra-ataque divino à iniciativa da rebelião liderada por Satanás, da qual resultou o grande conflito. O plano da salvação consiste em um conjunto de ações dramáticas desempenhadas pelo próprio Deus a partir de Seu trono, ou seja, o plano da salvação se origina no santuário celestial.
Não é à toa que a doutrina do santuário seja tão negligenciada e combatida, porque as agências satânicas operam para que essa verdade (e as que gravitam ao seu redor) jamais cheguem ao conhecimento do pecador (Dn 7:25; 8:9-12; 11:31-32). Entretanto, de Seu trono Deus julga o universo, quer punindo os ímpios, quer garantindo a salvação dos santos (Dn 7:9-10, 26-27; Ap 6:16; 7:10-12, 15, 17). A partir do trono que está localizado no santuário, Deus reivindica Seu caráter e autoridade, punindo a presunção satânica de exercer uma autoridade rival (Ap 13:2; 16:10).

Por isso, de uma perspectiva escatológica e estritamente pessoal, Asafe pode encontrar a chave para as aparentes injustiças do mundo olhando para o santuário (Sl 73:16-17). O santuário é a chave para o grande conflito. Ele aponta para o juízo escatológico e isso nos dá a certeza de que as ações dos justos nesse mundo serão recompensadas. De Seu trono no santuário, Deus prepara o desfecho do grande conflito, reivindicando Seu caráter e julgando o mundo. Seu adversário será desmascarado e finalmente derrotado. Há esperança no santuário!

Leia também:

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

POR TRÁS DA REJEIÇÃO DO REMANESCENTE


A espiritualidade do remanescente está associada com a visão bíblica do santuário celestial/santificação. A própria caracterização do remanescente como um povo peculiar que guarda os mandamentos (Ap 12:17) já pressupõe uma compreensão da santificação. A guarda dos mandamentos não é um meio de justificação; do contrário, teríamos justificação pelas obras, não pela fé. A lei divina faz parte da vivência do cristão que já passou pelo processo de justificação e agora está vivendo os embates da vida cristã, ou seja, está lutando contra as tentações e prosseguindo em permitir que o Espírito atue nela, reproduzindo em sua vida a vontade divina conforme expressa nas Escrituras.
A visão evangélica do sacrifício de Cristo/justificação anula a necessidade de se guardar os mandamentos; logo, dissipa o traço identificador do remanescente. Assim, o remanescente escatológico dá lugar a outros conceitos, especialmente o da igreja invisível. O conceito da igreja invisível consiste em afirmar que todos os cristãos sinceros, que vivem na luz que possuem, são o remanescente. Sendo assim, o remanescente não é uma entidade visível, que se pode conhecer ou identificar. Trata-se de algo que apenas Deus conhece. Basta que alguém seja sincero e, independente de sua confissão de fé, tal pessoa poderá ser identificada (por Deus) como parte do remanescente.
Além de contradizer as Escrituras, igualar o remanescente com a igreja invisível é uma forma de (a) relativizar o papel das doutrinas na vida cristã e (b) anular a progressão histórica explanada no livro de Apocalipse. É certo que há pessoas sinceras que, em meio à confusão religiosa, ouvirão o chamado de Deus (Ap 18:4). Entrementes, isso não anula o fato de haver uma entidade presente e identificável, para a qual os sinceros, ademais, serão chamados a pertencer.
Mesmo entre os adventistas, existem algumas vozes (isoladas, é verdade) que reivindicam entendimentos alternativos sobre o remanescente – alguns coincidentes com a o conceito de igreja invisível. O fato de alguns adventistas pensarem nessa direção é a triste constatação de que a visão evangélica do sacrifício de Cristo/justificação se acha assimilada por eles.
Dizer que os adventistas são o povo remanescente não significa exclusividade de salvação. Afinal, o remanescente é o representante divino e tem a missão de levar a salvação a outros (Ap 14:6-12). Tão grande é a vocação e a responsabilidade do remanescente que devem conduzir a uma profunda humildade e dependência de Cristo.

Leia também:

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

O SANTUÁRIO: MENSAGEM PARA ESSE TEMPO


Lentamente, a vida cristã se dilui na cultura. Isso porque o que se entende por vida cristã é a visão evangélica do sacrifício de Cristo/justificação. A teologia evangélica, organizada em torno dessa visão, proporciona uma experiência cristã fragmentada. As doutrinas evangélicas, independente de quais ou quantas sejam, ficam deslocadas nessa estrutura. Isso porque a morte na cruz, nessa versão reduzida ao mínimo possível, se torna um elemento desagregador da doutrina. Não precisamos crer em muitas coisas ou mudar muitas coisas em nossa própria vida quando fomos gratuitamente perdoados de todo pecado.
Como essa compreensão não é bíblica, nem muito menos sólida, ele naturalmente recai para uma versão da graça barata. Não adianta apelar para o papel da obediência na vida cristã sem uma compreensão mais ampla do plano da salvação. Somente a visão bíblica do santuário celestial/santificação proporciona condições para uma vida cristã coerente e transformadora. A salvação deixa de ser veiculada a um evento passado, passando a pertencer à esfera presente. Deus opera no presente na vida do cristão por meio de Sua atuação no santuário celestial. É a contínua intercessão de Cristo (Hb 7:25) que aplica a expiação realizada completamente na cruz. Em outras palavras, o santuário torna efetivo o sacrifício de Cristo na vida do pecador.
Obviamente, as duas etapas do ministério de Cristo só devem ser separadas para fins didáticos. Em realidade, ambas se completam. O exemplo para entender essa intrincada relação é o sistema sacrifical do Antigo Testamento. O sacerdote só pode entrar no santuário com o sangue do sacrifício realizado. Mesmo o sumo-sacerdote entra no compartimento conhecido como lugar-santíssimo no dia da expiação apenas depois de ter realizado um sacrifício. Se o trabalho pelo pecador se resumisse ao sacrifício oferecido, Deus teria pedido a construção de um santuário em vão (Êx 25:8)! Se o sacerdote pudesse entrar no lugar santo sem sangue, a construção do altar e a ordem de sacrificar animais seriam inúteis. Os sacrifícios e a intercessão dos sacerdotes na tenda não eram apenas ações consecutivas como estritamente vinculadas entre si e necessárias para redimir. A morte de Cristo na cruz e Seu ministério sacerdotal no santuário (as duas fases) não podem ser separados – uma parte está vinculada à outra, sendo ambas necessárias para redimir o homem.
Quando essas duas etapas, relacionadas à salvação passada e à salvação presente são devidamente compreendidas, nenhuma área da vida fica fora do evangelho. O plano divino é transformar por completo a existência humana manchada pelo pecado. Para isso, o santuário serve como uma estrada de mão dupla: por meio de Cristo, temos acesso a Deus e, por meio dEle, Deus tem acesso a nós. O direito para ser nosso Intercessor Jesus o conquistou pela cruz. Logo, o santuário não é um meio de diminuir ou desprezar a obra vicária do Salvador na cruz, mas uma forma de exaltá-la e elevá-la à máxima importância.
Como o santuário se relaciona com a diluição da vida cristã? O ministério de Cristo no santuário (obra realizada no presente) corresponde ao processo de santificação (efeito de sua obra por nós no presente). Relacionando a Obra de Cristo com o plano da salvação, podemos entender que a salvação não termina no passado, na cruz. A salvação segue em desenvolvimento, renovando-se a cada dia. A vida cristã torna-se dinâmica e contínua. Aqueles que foram salvos (justificação) por meio da cruz agora se mantém salvos (santificação) por meio do santuário. O ministério de Jesus pelo pecador no santuário celestial impede que a vida cristã seja diluída pela cultura, tradição, inclinações pessoais ou quaisquer outros elementos. Isso não significa perfeição absoluta – algo impossível de se atingir na existência presente. Ao contrário: o cristão terá desafios e quedas, porém seguirá com o alvo adiante de si e as ferramentas necessárias para continuar crescendo na graça de Deus.


Leia também:

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

UMA GERAÇÃO QUE DESCONHECE O SANTUÁRIO


Graças às mudanças de ênfase que foram se acumulando, algumas gerações de adventistas não tiveram a oportunidade de se conectar com as raízes do movimento. Isso significa que o que essas gerações conhecem e experimentam se restringe à versão evangélica do adventismo. Obviamente esse ponto precisa ser bem compreendido para se evitar equívocos ou dar margem a discursos polêmicos.
O primeiro passo é recapitular a descaracterização da mensagem do santuário. Em grande parte, a igreja já havia se aproximado do mainstream evangélico na década de 1920, durante o ápice do fundamentalismo. O fundamentalismo tenciona voltar ao cristianismo tradicional, em uma época em que o liberalismo crescia nos estados Unidos, ganhando o controle de muitos seminários. A aproximação do fundamentalismo era desnecessária ao adventismo. Isso porque enquanto o mundo evangélico convidava a retroceder à tradição, o adventismo convidava a ir mais longe, voltando para os ensinamentos bíblicos, que antecediam a tradição. A tradição cristã é, em realidade, composta por elementos híbridos dos preceitos bíblicos com a filosofia grega. Seja como for, os adventistas acabaram se aproximando do evangelicalismo. Essa aproximação cresceu quando, para qualificar as instituições de ensino, muitos professores adventistas continuaram seus estudos em instituições cristãs. Ao fazer isso, esses acadêmicos assimilaram pressuposições não-bíblicas, correntes na teologia e pensamento evangélicos. Por esses fatores, a crise da justificação pela fé, na década de 1970-1980, que culminou com o caso Ford, apenas deflagrou uma crise que se desenhava internamente nas fileiras adventistas.
Embora a erudição adventista se preocupasse em solidificar as bases de nosso pensamento, o que se tem intensificado desde a década de 1980, em nível popular a mensagem de justificação pela fé ganhou terreno no adventismo. Devidamente compreendida, essa mensagem faz parte da obra do terceiro anjo de Apocalipse 14. Os pioneiros adventistas custaram para alinhar a ênfase justificação pela fé com a validade da lei divina. Em realidade, não há conflito inerente; quando se aplica a estrutura de salvação em três tempos, cada etapa do processo de salvação pode ser alinhada, formando um todo coerente. Entretanto, a teologia evangélica opera sob a visão evangélica do sacrifício de Cristo/justificação. Essa visão desequilibra o plano da salvação, reduzindo-o ao plano da salvação pessoal, subtraindo a estrutura macro-hermenêutica do conflito cósmico e dispensando o sistema agrupador do santuário celestial. Com a força dessa mensagem, o adventismo se viu diluído.
Isso não significa que a igreja tenha alterado suas crenças. Oficialmente, o santuário segue como parte da mensagem adventista. Entretanto, em nível popular, ou, mais propriamente, no nível da igreja local, a crença no ministério de Jesus e a compreensão da vida cristã como estando focada na santificação passou a ser ignorada. A demonstração mais evidente disso são as infindáveis discussões sobre estilo de vida. Por que elas ocorrem? Por que tantas questionam os princípios básicos do estilo de vida adventista? Porque eles não são compatíveis com a visão evangélica do sacrifício de Cristo/justificação. Evidentemente, considerações sobre estilo de vida adventista pertencem à outra estrutura: são parte integrante da visão do santuário celestial/santificação. Discutir princípios de estilo de vida à parte dessa estrutura é como discutir as orientações de Maomé à parte da cosmovisão islâmica.
Como toda uma geração de adventistas (ou mais de uma, para ser exato) desconhece a visão do santuário, não se pode esperar que a igreja viva, cante, se vista, testemunhe e ensine como seus pioneiros.  Obviamente, precisamos de um processo de busca baseada nas Escrituras, semelhante ao que vivenciaram nossos pioneiros, para sermos reconduzidos ao coração da mensagem que Deus nos deu. Creio que o Espírito está nos guiando para isso. É tempo de atendermos ao Seu chamado.


Leia também:

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

EQUÍVOCOS SOBRE A SANTIFICAÇÃO



Alguns erros são persistentes quando o assunto é santificação. Talvez por conta disso, algumas pessoas tenham um conceito ruim do processo. Para evitar mal entendidos e, na esperança de promover a santificação, é necessário rever dois conceitos equivocados:
(1) A santificação não é salvação pelas obras: alguns entendem que, enquanto a justificação é a obra que Cristo realizou por mim na cruz, a santificação é minha parte no processo. Obviamente, todo o processo de salvação é feito com a colaboração humana. Dizer o contrário, seria estabelecer que Deus nos salva contra nossa vontade. Agora, a confusão surge na hora de se estabelecer o que compreende a colaboração humana. Se a salvação possui três tempos – passado (justificação), presente (santificação) e futuro (justificação) – precisamos verificar como o gênero humano interage em cada etapa.
Na justificação, a parte humana reside em (a) aceitar a obra do Espírito, que o convence do pecado (Jo 16:8), (b) o que conduz ao arrependimento (Rm 2:4; At 5:31; 2 Co 7:10; cf.: Mt 9:13; Mc 2:17; Lc 15:17; At 2:38) e consequente (c) recebimento de Jesus como Salvador (At 16:31, Rm 5:11; 10:9; cf.: Jo 4:42; At 5:31; 13:23; 1 Tm 4:10; 2 Tm 1:10; 1 Jo 4:14). Essas etapas e o que nelas está implícito constituem um passo de fé. A fé surge como consequência da atuação do Espírito, que desperta em nós confiança no testemunho dado pela Palavra de Deus (Ef 1:13; 6:17; cf.: para outras relações, ver Ag 2:5; At 10:44; 1 Co 12:8). A Palavra é o meio principal pelo qual o Espírito Se comunica conosco (2 Pe 1:20-21; cf.: Mr 12:24). Ao aceitar a Cristo, o fazemos com base no testemunho das Escrituras (1 Co 15:3; 1 Tm 3:15).
Na santificação, a parte humana reside (a) receber graça para uma vida vitoriosa (o batismo diário do Espírito Santo: Jo 1:33; Rm 1:4; 6:19, 22; 1 Co 6:11; 1 Pe 1:2), (b) atuar (pensar, agir, falar) como um agente espiritual, um súdito do Reino de Deus (Hb 12:14, (c) escolher estar instante a instante em comunhão com Deus (1 Co 1:9; e (d) reformar aspectos da vida de acordo com as diretrizes da Palavra (Ef 5:25-26; 1 Ts 4:3-4, 7). A santificação é um processo contínuo de viver pela fé sob a intercessão do Salvador vivo e atuante no santuário celestial.
Na glorificação, todo o preparo de uma vida será coroado pela recompensa de ver o Salvador vindo nas nuvens. Pode-se falar em recompensa, um termo bíblico (Sl 58:11; Pv 12:14; Mt 10:41-42; Lc 6:35; Jo 4:36; Cl 3:24; Hb 10:30, 35; 11:26; 2 Jo 8; Ap 22:12), o que não implica em méritos próprios, mas em abertura e correspondência – uma vida aberta à influência do Espírito (que Se comunica prioritariamente pelo cânon) e que correspondeu, ou seja, seguiu a direção do Espírito em exercício de fé.
Assim, a salvação como um todo (e a santificação em particular) acontece por meio da fé, com a participação ativa do ser humano, como aquele que recebe a graça e coopera pela fé (Hb 13:12). Jamais se pode conceber qualquer etapa do processo de salvação como dependente do esforço, dignidade ou boa vontade do ser humano. Apenas pelo poder divino em nós somos habilitados a corresponder à graça concedida, em atos de fé;
(2) santificação não resulta em impecabilidade na experiência atual: a luta contra o pecado certamente faz parte da salvação: Não podemos jamais nos conformar com qualquer prática ou pensamento pecaminoso, sem o risco de perder a salvação. Uma vida transformada por Cristo implica em transformação que habilite obediência (Rm 13:14) Entretanto, a natureza humana continuará sendo a mesma – pecaminosa.
Adão, ao pecar, foi afetado pelo pecado em todos os aspectos de Sua natureza. A queda trouxe efeitos físicos, mentais e espirituais. Jesus, ao vir ao mundo, embora não tivesse desejos pecaminosos ou mesmo inclinação para pecar (Hb 7:26; 9:14; 1 Pe 1:19), foi afetado física e mentalmente pelo pecado, tornando sua obediência mais difícil do que a de Adão (Fl 2:7-8). Ao contrário de Jesus, nós temos inclinações pecaminosas, que nos impedem de viver totalmente isentos do pecado (Rm 7:25) Afirmar a possibilidade de perfeição absoluta na atualidade é desconhecer os efeitos do pecado na humanidade e o próprio grau de degradação em que estamos. Por isso, a santificação exige uma constante tensão: viver contra o pecado, sabendo que a vitória absoluta será alcançada apenas na vinda de Cristo.
Assumir a impecabilidade pode trazer extrema frustração para a vida cristã, porque se estabelece um alvo intangível. Viver em santificação não significa a impossibilidade de recorrer a Cristo, como se a busca pelo perdão pertencesse exclusivamente à etapa anterior, à santificação. Quando alguém que já aceitou o perdão de Cristo na cruz (justificação) torna a pecar, não significa que voltou uma casa atrás do jogo; a santificação nos dá acesso ao perdão e à intercessão do Sumo Sacerdote Jesus (1 Jo 2:1; Hb 4:14-16). Somos renovados e restaurados, porque a santificação é uma caminhada pela fé, realizada por pecadores que estão se assemelhando a Cristo em caráter (2 Pe 3:18). O fim da jornada é a volta de Jesus e ali o povo de Deus já não será constituído por pecadores, mas por redimidos que venceram o pecado pelo sangue do Cordeiro (Ap 7:14; 14:1-4). Assim se pode dizer que a santificação resulta em impecabilidade na experiência futura (1 Pe 1:4-5; 1 Jo 3:1-2) – jamais na atual (1 Jo 1:8, 10).
Até lá, o que Deus requer de nós é maturidade (Gn 17:1; Dt 18:13; 2 Sm 22:26; Mt 5:48; 1 Co 1:8). Maturidade espiritual não difere muito do conceito geral de maturidade no que se refere aos requisitos básicos para a aquisição: tempo e experiência. Uma vida cristã madura é o alvo da santificação (Fl 3:12; Co 1:28; 2 Tm 3:17) e exige constante comunhão com Deus para ser atingida.
Compreender o que a santificação não é torna mais fácil evitar os preconceitos e temores relacionados a ela. Assim fica aberto também o caminho para entende-la com maior clareza.


Leia também:

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

A PERDA DA ESSÊNCIA


Desde a década de 1950, os adventistas passaram a assimilar pressuposições da teologia evangélica, deslocando o aspecto central da vida cristã, que se fundamentava na visão bíblica do santuário celestial/santificação, passando a advogar a fundamentação na visão evangélica do sacrifício de Cristo/justificação.
O primeiro binômio se refere à experiência presente do cristão, bem como à atuação presente de Cristo em favor do cristão. Experimentar a salvação como santificação implica em ter aceito a justificação como experiência passada e prosseguir crescendo em graça, rumo à maturidade (Hb 6:1). Entender a atuação de Jesus no santuário celestial é receber força de Seu trono de graça para resistir à tentação (Hb 4:14-16). Em contrapartida, o segundo binômio se refere à experiência passada do cristão, bem como à atuação passada de Cristo em favor do cristão. Experimentar a salvação como justificação faz com que o crente volte sempre ao mesmo ponto, sem poder avançar – não há crescimento, apenas o ciclo de pecado-retorno-perdão. Restringir a atuação de Jesus à morte na cruz e Sua ressurreição implica no entendimento parcial de Sua obra – aceita-se a vitória que Ele conquistou em nível pessoal, sem perceber a aplicação dela no escopo do grande conflito universal e Seu direito de, mediante o sacrifício, atuar na vida de Seus filhos por meio do Santuário celestial.
Ao substituir a visão bíblica do santuário celestial/santificação pela visão evangélica do sacrifício de Cristo/justificação, alguns autores adventistas deram os passos lógicos, eliminando a essência do adventismo e defendendo uma visão evangélica do adventismo. Na visão evangélica do adventismo, as doutrinas bíblicas que constituíram marcos do adventismo são descartadas. É elucidativo o caso de Desmond Ford, que provou em sua teologia uma crise imensa. Ford viu a incompatibilidade entre adventismo e teologia evangélica. Logo, passou a eliminar a essência do adventismo e defender uma visão evangélica do adventismo. Na versão evangélica do adventismo advogada por Ford, não há necessidade da obra de Jesus em Seu santuário (muito menos que isso tenha ocorrido a partir de 1844). Afinal, a justificação pela fé acontece agora e não se preciso um juízo investigativo. A santificação ou crescimento em graça fica praticamente descartada. Infelizmente, Ford não foi o único a defender uma versão evangélica do adventismo.
Quanto mais se estuda o assunto, fica mais fácil perceber que o adventismo das últimas décadas carrega as influências da teologia evangélica. Alguns fatores são evidências atuais do mesmo fenômeno, que se prolonga na atualidade. Para registro, mencionamos apenas algumas das evidências atuais da abrangência da versão evangélica do adventismo: (1) falta de ênfase no estilo de vida adventista; (2) a desconexão entre o ministério de Jesus no santuário celestial e a vida cristã; (3) poucas abordagens sobre santificação; (4) abundância de sermões, músicas e mensagens diversas com foco na salvação, restringida ao processo de justificação.
Enquanto o adventismo do presente não superar a visão evangélica do sacrifício de Cristo/justificação como aspecto central da vida cristã, estará sujeito ao processo de fragmentação, secularização e carismatização que ocorre no movimento evangélico. Em outras palavras, se o adventismo não recuperar a visão bíblica do santuário celestial/santificação, ele perderá sua essência.
Leia também:



segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

MOTIVO PARA A FRAQUEZA DO CARÁTER CRISTÃO DE NOSSA ÉPOCA


Qual a relação da experiência da salvação com o ministério de Jesus? Por ministério de Jesus, compreende-se três fases básicas: (1) Seu ministério terrestre, que culmina em Sua morte e ressurreição; (2) Sua ascensão e ministério no Santuário celestial (que inclui a fase no lugar santíssimo, a partir de 1844); e (3) Seu glorioso retorno. Essas três fases ocorrem em três tempos distintos: (1) o ministério terrestre se deu no passado; (2) o ministério no santuário ainda ocorre, relacionando-se com o presente; (3) Seu retorno, a parte final de Seu papel como Salvador, se dará no futuro. Portanto, qual a relação da salvação com o ministério de Jesus, o qual ocorre em três tempos?
Responder essa pergunta requer um entendimento amplo da salvação. Se a salvação fosse um ato pontual, um evento histórico único, não teria correspondência com todo o plano da salvação. Se a salvação fosse relacionada ao passado, desconsiderando os demais tempos, se restringiria à justificação. Exatamente isso acontece com a teologia evangélica, desde os dias de Lutero. Ao restringir a salvação ao passado, ligando-a à cruz, ela se torna uma experiência história, um evento, não um processo contínuo que afete a vida do cristão na atualidade. A atualização da salvação é uma questão de memorialismo, que pode dar lugar a cerimônia que relembre o que Cristo fez, dando espaço à teologia sacramental. Por outra instância, se a salvação se referisse ao presente, ligada ao processo de juízo que Jesus realiza no Santuário celestial, poderia facilmente se desligar da cruz ou do retorno de Jesus, dando espaço para uma vida cristã focada em salvação pelas obras. Assim se ignoraria o ato de Deus em nos salvar. Finalmente, se a salvação se focasse apenas no futuro, no retorno de Jesus, desvinculada da cruz e do santuário, teríamos um cristianismo místico, sem maiores considerações em relação com a parte histórica e concreta do cristianismo; afinal, a escatologia só possui dimensão concreta enquanto escatologia iniciada, em associação com a história da salvação.
Para entender a relação da salvação com o ministério de Jesus, o qual ocorre em três tempos, é necessário compreender a salvação em três tempos.  A salvação não é um evento histórico único, mas um processo. A salvação é um processo composto por etapas que correspondem ao ministério de Jesus. A salvação pode ser dividida em três etapas: justificação, santificação e glorificação. Cada uma dessas etapas corresponde a um tempo: (1) a justificação é um evento passado – um dia se aceitou a Jesus como Salvador e se experimentou a salvação imediatamente; (2) a santificação é um evento presente – depois de se ter aceito a Jesus, se inicia a transformação operada pelo poder do Espírito, que nos conforma com as exigências da Palavra, nos tornando semelhantes a Jesus em caráter; (3) A glorificação é um evento futuro – uma vez que se aceita a Jesus e se passa toda uma vida para desenvolver um caráter semelhante ao dEle, finalmente se poderá vê-Lo voltando em glória, e se experimentará a transformação completa que livrará mente e corpo dos efeitos do pecado.
Sendo a salvação um processo, desenvolvido em três tempos, cada uma de suas etapas possui seu referencial na obra de Cristo: (1) a justificação, evento passado, se liga à cruz e ressurreição; (2) a santificação, evento presente, se liga à intercessão e juízo a partir do santuário; (3) a glorificação, evento futuro, se liga ao retorno glorioso de Jesus à Terra. De todos os momentos, o que mais nos interessa, para fins práticos, é a santificação, justamente por (a) se referir ao presente do cristão, ou seja, à sua experiência ordinária e cotidiana; (b) se referir ao presente de Cristo, ou seja, à etapa que presentemente Ele desenvolve em favor de Seu povo no santuário celestial. Assim, dentro da relação da salvação com a obra de Jesus, o ponto focal deve ser a relação da santificação com ministério de Jesus no santuário. A obra de Jesus no santuário é o elo que une Seu ministério terrestre com Seu ato final de Salvação, realizado em Seu retorno. A santificação é o elo que une a justificação passada com a glorificação futura. Quando se pensa em vida cristã, o mais natural seria pensar prioritariamente em termos de santificação e na dependência desse tipo de experiência com o ministério de Jesus no santuário. Infelizmente, ainda se pensa em vida cristã em termos de justificação, que, nos meios populares, praticamente resume o que significa ser um cristão (como determinado segmento evangélico norte-americano que se autodenomina “nascidos de novo”). Daí a fraqueza do caráter cristão de nossa época.

Leia também: